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sábado, 17 de junho de 2017

‘Quarenta dias’, de Maria Valéria Rezende

"Cortesia e amor, as únicas coisas indispensáveis pra viver". ‘Quarenta dias’, de Maria Valéria Rezende, me veio cheio de novas experiências e surpresas. Foi o primeiro livro que eu comecei a ler sem qualquer referência a mais, sem fazer ideia sobre o que era ou quem era a autora. Foi por indicação da Tâmara. Ela leu alguma coisa minha e disse “Você tem que ler Quarenta dias da Maria Valéria, tem tudo a ver com o que você está escrevendo”. Baixei o arquivo .mobi no LêLivros (desculpa pelo vacilo, Maria Valéria!!!) e transferi para o meu Kindle. Foi a primeira experiência minha no Kindle de leitura de um longo romance (geralmente uso ele para fins acadêmicos) e foi bastante curiosa. Passei a ler livros por porcentagem, já que não há páginas, só posições nos textos. “Hoje vou ler 20%”. E isso ia me dando noções de localidade dentro da obra completa. Fui lendo e a história da professora revoltada com a filha e que aos poucos vai se encontrando e vivendo nas ruas de Porto Alegre tinha uma verdade tão profunda e tão bem construída (talvez pelo modo como entrei no livro, sem qualquer referência) que eu lia como um relato de experiência vivida. “Não, ela é freira, é tudo ficção”, me disse Tâmara numa ligação e me contou todas as tretas, do prêmio Jabuti, do Chico Buarque. Mas já era tarde, a Alice, personagem do livro, já era verdadeira para mim, já queria conhecer a Alice de carne e osso. É genial a forma como a autora vai lançando a personagem nesses caminhos da cidade, nesses 40 dias – tempo de travessia – que a personagem vai vivendo nos “não-lugares” da cidade. Esses lugares que para esses sujeitos que vivem na rua são OS lugares, lugares de sono, de banho, de beber água, lugares de convivência. O que ela chama de "minha romaria pelo avesso da cidade, explorando livremente todas as brechas, quase invisíveis pra quem vive na superfície, pra cá e pra lá, às vezes à tona e de novo pro fundo, rodoviária, vilas, sebos e briques, alojamentos, pronto-socorro, portas de igrejas, de terreiros de candomblé, procurando meus iguais, por baixo dos viadutos, das pontes do arroio. Dilúvio, nas madrugadas, sobrevivente, sesteando nas praças e jardins, debaixo dos arcos e marquises, sob as cobertas das paradas de ônibus desertas, vendo o mundo de baixo pra cima, dos passantes, apenas os pés”. É uma senhora de classe média que se deixa viver na rua. Para a Alice o apartamento que a filha montou para ela, querendo-a no lugar de avó cuidadora contra a sua vontade, é que era um não-lugar (se é que podemos supor que isso exista, aos modos de Marc Augé, os lugares transitórios que não possuem significado suficiente para serem definidos como "um lugar"), onde tudo é branco, tudo soa como loja de design, sem memória ou afeto, é dali que ela quer fugir, e foge, discretamente, sem ser dada como desaparecida. “Isso quase podia ser um resumo de qualquer vida quando começa, sair por aí, a ganhar o mundo, à toa”. E é lindo como a busca mal elaborada por um tal de Cícero Araújo, filho de uma paraibana que desapareceu depois que se mudou para Porto Alegre, uma história que aos poucos ganha contornos de ficção serve como uma parca desculpa para criar motivações e caminhos, assim a personagem é “movida por pura ficção”. "Eu descobria que o mundo era feito em grande parte de gente desaparecida, gente que não deu mais notícia e gente desesperada atrás ou a esperar conformadamente pelos sumidos.". E você sofre e descobre com Alice como superar as vulgares necessidades do viver, que para quem mora na rua são as grandes questões, como onde dormir (na espera de uma emergência de um hospital, num banco de rodoviária,numa marquise, no gramado de um praça, nos bancos de um ônibus), onde comer (padaria de bairros populares, carrocinhas de cachorro-quente, pessoas que ajudam nas ruas), onde se banhar (chuveiro de rodoviária, papel toalha umedecido de banheiro público), onde ler (sebos), etc. "Eu já sabia que simplesmente estar parada, sem uma explicação plausível, em algum lugar por onde normalmente só se passa ou se espera, tornava uma pessoa suspeita e lá vinham os olhares de cima a baixo." A viagem de Alice nos ensina que não há "nada como a luta contra o caos material pra fazer a gente pôr os pés de volta no chão, lidar com objetos concretos é uma boa terapia pros males da alma", completando "filosofei no meu novo estilo autoajuda."