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quinta-feira, 19 de julho de 2007

PEQUENAS MULTIDÕES: ORKUT E HOMOEROTISMO CAPIXABA


UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

CENTRO DE ARTES

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

DISCIPLINA: TÓPICOS ESPECIAIS EM JORNALISMO II

RESPONSÁVEL: FÁBIO MALINI

ALUNO: SÉRGIO RODRIGO DA SILVA FERREIRA

PEQUENAS MULTIDÕES: ORKUT E HOMOEROTISMO CAPIXABA

Sérgio Rodrigo da Silva Ferreira[1]

“Sou todo mundo
No fundo eu sou a multidão
Sou só densidade
Da cidade sem cidadão.”

(Marcelo Quintanilha)

0 INTRODUÇÃO

Este texto transita por um campo delicado: o sexual, o passional, o pseudo-afetivo, o imaginário... Pretendo analisar alguns aspectos formais e de relações sociais nas comunidades homoeróticas capixabas do orkut e de como eles refletem algumas características da sociedade contemporânea. Entretanto, este não tem a pretensão de ser definitivo, são reflexões imaturas e iniciais e lança as primeiras reflexões em relação ao assunto. Partirei do pré-suposto que o leitor tem pré-conhecimentos de determinados conceitos e me pouparei de explicá-los por questões espaciais do texto.

Inicialmente, exporei sobre o site orkut e algumas de suas características gerais de mecanismo de vínculo social e produção de conhecimento. Logo em seguida, falarei sobre alguns conceitos aplicados no artigo sobre multidão e especificamente a que se refere esse trabalho, a de homens capixabas com comportamento homoerótico na web. Finalmente, falo de como essa pequena multidão se apropria, numa auto-organização, dessa tecnologia para seus interesses. Concluo o trabalho, falando de resistência, fuga e captura nesse meio.

1 ORKUT E HOMOEROTISMO CAPIXABA

1.1 ORKUT

O orkut é um site de relacionamentos criado por Orkut Buyukkokten (funcionário do Google) e que se alastrou rapidamente pelo Brasil. Ele permite que seus usuários criem redes de relacionamentos, se comuniquem via mensagens e se organizem em comunidades para a discussão de interesses comuns. Os membros dessa rede, “com a exposição de suas idéias, seus conhecimentos, suas fotos (naturais, manipuladas, distorcidas,...), de suas características (desde informações pessoais e profissionais até informações comportamentais – opção sexual, crenças, gostos,...), enfim, de suas vidas, acabam alimentando mesmo que inconscientemente um mundo imaginário e participando ativamente de relações sociais características da sociedade atual” (PITHAN, 2004).

O orkut aponta para algumas das características da sociedade contemporânea tais como o simulacro, o tribalismo e a busca do prazer imediato e individual (mesmo que através do outro). Além disso, o site, como boa parte da tecnologia na pós-modernidade, segundo Maffesoli (2000), favoreceu um reencantamento do mundo, um (re)nascimento de um ‘mundo imaginal’ e de um modo de ser e de pensar perpassadas pela imagem, pelo imaginário, pelo simbólico e pelo imaterial. A imagem como meio, vetor, elemento primordial do vínculo social.

1.2 PEQUENAS MULTIDÕES: HOMOSSEXUALISMO CAPIXABA

O que é a Multidão? Antônio Negri nos diz que a multidão é um conjunto de singularidades, ou seja, são diferenças que se mantêm diferentes. A multidão é múltipla, não unificada e plural. Seus sujeitos sociais são ativos, eles agem com base naquilo que suas singularidades têm em comum. Ou, como o próprio autor nos diz, “a multidão é uma carne viva que governa a si mesma” (NEGRI, 2005). A produção biopolítica da multidão tende a mobilizar o que compartilha em comum e o que produz em comum contra o poder. Entretanto, essas condições comuns que os sujeitos da multidão compartilham não querem dizer que há uniformidade e nem unidade entre eles, é bom que isso fique claro. A multidão é “uma rede aberta de singularidades que se mantém unida com base no que compartilham e produzem em comum” (NEGRI, 2005).

Para que surja a diferença é necessário que haja dois ou mais pólos que se conflitem em alguns aspectos e assim se diferenciem e exista a singularidade. Essa diferença no campo social pode ser socioeconômica, de raça, de gênero e de sexualidade. A partir das teorias marxistas, se estabeleceu que só existem as classes porque há as lutas de classe. Assim, uma classe ou uma multidão surge com a resistência política à opressão, da coletividade que luta em comum contra um poder hegemônico.

No caso desse artigo, uma primeira característica comum de nossa pequena multidão é a de serem homossexuais ou homens com comportamento homoerótico. Ao oporem-se praticando atos homoeróticos num mundo em que as relações afetivo-sexuais tidas como normais são heteronormativas esses sujeitos resistem. Outra característica comum a eles é a localidade. Vivendo num estado que está, num âmbito nacional - e mesmo regional -, culturalmente na margem ao afirmarem-se capixabas e discutirem questões do espaço e do modo de vida estadual também há aí uma resistência: à dominação cultural do circuito Rio-São Paulo. E, por fim, a última característica que compartilham é o uso da internet (e do orkut!) para se relacionar. Termina aí as características comuns desses sujeitos.

Enfim, eles compartilham essas questões comuns e isso os juntam tornando-os uma multidão de capixabas com comportamento homoerótico no orkut para discutir e se organizar a fim de satisfazer seus interesses apenas no âmbito do comum. Estão juntos num mesmo espaço virtual, mas não estão unidos.

1.3 O USO DO ORKUT PELA MULTIDÃO

“São tantas comunidades, tantas pessoas...
De repente o olho bate e aquela foto chama nossa atenção.
Mas ao abrir... o cara está longe...
Esta é a sua comunidade no Espírito Santo.
Exclusiva para homens!”

(Descrição da comunidade “Gay ES”)[2]

“Comunidade para os gays da Região da Grande Vitória (Serra, Vila Velha, Vitória e cidades vizinhas) para quem não aguenta mais aquelas comunidades que só tem gente de São Paulo e Rio.
Vamos nos organizar, conhecer e trocar idéias.”

(descrição da comunidade “Grande Vitória - ES (GAY)”)

As descrições das comunidades citadas acima mostram bem o uso do orkut para fins homoeróticos no Espírito Santo e reflete alguns ideais pós-modernos. O ideal democrático da modernidade está sendo cada vez mais sucedido ao ideal comunitário da pós-modernidade. “De uma forma mais ou menos consciente, vive-se uma forma de ‘estar-junto’ que não é voltada para a realização de uma sociedade perfeita no futuro, mas que se dedica a organizar o presente o qual tenta se tornar o mais hedonista possível (o prazer individual e imediato como o único bem possível)” (PITHAN, 2004). No caso das comunidades analisadas os sujeitos se auto-organizaram e utilizaram a tecnologia a sua disposição transformando-a numa espécie de agência virtual para fins afetivo-sexuais, um espaço que permite a auto-publicidade sexual e o anúncio de busca de parceiros. Alguns exemplos dessas comunidades são: “Gay ES”, “Grande Vitória – ES (GAY)”, “Entendidos Espírito Santo”, “Gay Capixaba”, “Gatos Discretos do ES”, “Sexo Gay do Sul do ES”, “Programa Gay Gratis no ES”, “Cantinho Gay de Vitoria-ES”, “Praia Feira do Cu[3]”, “Ufes gay[4]”, “Vitória / ES -casamentos Gays”.

Além disso, em menor escala buscam e produzem informações de lugares materiais destinados a práticas homossexuais no Estado. Veja alguns títulos de tópicos encontrados nessas comunidades que revelam esses dois principais usos da comunidade - agência afetivo-sexual e para informações: “procuro !!!!”, “me add...”, “da onde vcs sao?”, “Ativo sarado”, “Fuder e ser Fudido!”, “Point Gay”, “QUERO NAMORADO!!”, “sexo na reta da penha”, “Boates na Cidade...alguem pode indicar?”, “Brincadeira Pega de geito ou nen nun escurinho”. O conteúdo de dois deles reforça isso ainda mais:

“procuro ativos de todo es para sexo na real com muito tesao..curto duplas suruba etc...me add interessados...abçao...”

(Do tópico “procuro!!!!”)

“Alguem pode dar umas dicas GLS da cidade de Vitoria e Vila Velha? Alguma festa ou bar??
Abraços e beijos a todos
aguardo contato”
“Apesar de nao frequentar o ambiente dizem que a melhor e´uma chamada Move Music que fica na Av. Adalberto Simão Nader proximo ao Aeroporto de Vitória”

(Do tópico “Boates na Cidade... alguém pode indicar?”)

O que fica claro, nessas comunidades é a supervalorização do outro, sendo que a existência se dá pelo e para o outro. Os integrantes se sentem incluídos socialmente, pois suas explanações são lidas e respondidas. Por haver interesses comuns os membros da comunidade são recebidos e reconhecidos pelos outros numa busca efetiva de conexão social que visa, a primeira vista, ultrapassar o virtual e se materializar. E nesse contato entre o eu e o outro é que surge a produção comum dos membros da comunidade e a criação de uma linguagem e de um fluxo de informação próprios.

Basicamente, essa linguagem está no campo do verbal e do imagético. A linguagem verbal utilizada aproxima da linguagem publicitária para o auto-anúncio e da jornalística para as informações (com uma total despreocupação com as normas cultas da língua e utilizando linguagens próprias da web) todas com marcas pessoais como “eu faço”, “eu faço”, “eu quero”. O imagético se dá nos avatares e nos álbuns de fotos e são elementos fundamentais para sedução e consequentemente possibilitar que o relacionamento saia do campo do virtual para o material. O medo de ser descoberto e a própria linguagem tradicional da sexualidade (o pornô), que “é caracterizada muitas vezes por separar, cortar, decupar os corpos retirando sua integridade física e social” (ABREU, 1996), fez com que se criasse um padrão no qual apareçam apenas partes das pessoas: o peito, a boca, as nádegas, os braços... – pênis e ânus foram eliminados com ações do google de exclusão de perfis contendo essas imagens. Além de despertar a imaginação na busca pelo todo esse recurso protege a identidade do membro ao mesmo tempo que cria-lhe uma nova, já que a identidade aqui é um produto da comunicação.

A possibilidade de anonimato é um dos fatores determinantes do interesse desses membros e da forma como se relacionarão neste ambiente virtual. São ao mesmo tempo atos criativos e protetores das identidades que muitas vezes não se assumem – gays e/ou usuários dessas comunidades - no ambiente off line. O uso de nomes falsos (ou nicks) é uma prática comum, alguns exemplos deles são: “Gato Selvagem”, “Gatão Procura Namoro”, “×QUERENDO ...×”, “DEIXA ACONTECE Q EU FAÇO VALER APENA”, “Ricardo Vila Velha”, “DISCRETASSO_ES__ amante das artes__(um chato)”, “К♥Rei de Copas♥К ...”, “Passivo Quente”, “Garoto_vv .”, “Ursinho 131313”.

Independente de tudo isso, o que considero de maior importância discutir e afirmar aqui é a criação intersubjetiva. Há uma grande variedade, diversidade e mudança de vozes, uma descentralização quase que total. Os padrões criados são criados conjuntamente visando os interesses comuns e os membros são pró-ativos.

2 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Hoje, segundo Negri, a ação política e de transformação só se dá através da multidão. As comunidades analisadas aqui neste artigo revelam dois lados opostos de uma mesma moeda: a conformação e a ruptura com o sistema estabelecido.

O anonimato e a retirada dos meios sociais revelam o medo e conseqüente aceitação da repressão social da homossexualidade revelando uma conformação ao sistema heteronormativo. Essas comunidades seriam uma forma de viver a sexualidade sem precisar assumi-la nos círculos sociais familiares, de amizade e de trabalho.

Além disso, a internet e toda sua rede é necessária ao sistema, pois o império necessita dela, para usar o termo negriano. É o império que faz a conexão de placas e cabos. É o império que mantém a infra-estrutura física. Pois, pela necessidade de enfrentar a escassez do capitalismo, o sistema procura aumentar a velocidade e a eficiência das suas relações. Esse sistema é paradoxal e provoca a sua própria contradição. Cria espaço para catalisar a liberdade.

Assim, temos essas multidões que se alimentam das contradições do sistema e, que encontram na rede um ambiente propício para expressar a sua potência e constituir uma produção comum. A multidão está em todos que fazem as ligações para a auto-organização. É imanente. Compartilhar interesses faz com que as pessoas se aproximem, se juntem. Essa é a lógica que tem ação descentralizadora. Dessa forma, é possível recriar a existência através do diálogo, da apropriação e da ocupação de espaços vazios de poder. Esses espaços, como o orkut, permitem a formação de comunidades virtuais interconectadas que são ocupadas pelas pessoas que transitam aleatoriamente no ciberespaço numa forma de nomadismo. A liberdade também é nômade. Aliás, Deleuze define o nomadismo como um modelo de resistência ao poder.

A homossexualidade e a exibição do sexo e das formas sexuais no orkut podem ser vistas sobre outra ótica. Numa forma discreta, vão de encontro à moral estabelecida e iconoclasticamente a corroem. Sua forma rizomática contribui para essa fuga. Essa referida forma rizomática é assim descrita por Deleuze: “Existem linhas que não podem ser resumidas em trajetórias de um ponto e que fogem da estrutura, linhas de fuga, devires, sem futuro nem passado, sem memória, que resistem à máquina binária, devir-mulher que nem é homem nem é mulher, devir-animal que nem é bicho nem homem. Evoluções não paralelas, que não procedem por diferenciações, mas que pulam de uma linha para outra, entre seres totalmente heterogêneos; fissuras, rupturas imperceptíveis, que quebram as linhas, mesmo se retomam em outro lugar, pulando por cima dos cortes significantes”. E se encaixa perfeitamente ao caso exposto neste trabalho. O capitalismo, como nós o conhecíamos, apesar de ainda dominante, não consegue mais sustentar a lógica da acumulação e do trabalho. Seus principais alicerces, a economia, o paradigma da ética burocrática e a cultura de massas, estão em crise. E isso é muito bom.

Haveria muito ainda a se falar e a se pesquisar sobre o assunto. Entretanto, eu encerro meu artigo por aqui.

3 REFERÊNCIAS

HARDT, Michael & NEGRI, Antonio. Multidão: Guerra e democracia na era do Império. Rio de Janeiro: Record, 2005.

Orkut. Disponível em: . Acessado em 21 de jun. De 2007.

ABREU, Nuno César. O olhar pornô: a representação do obsceno no cinema e no vídeo. Campinas: Mercado das Letras, 1996.

MAFFESOLI, Michel. Mediações simbólicas: a imagem como vínculo social. In Para navegar no século XXI / Org. Francisco Menezes Martins e Juremir Machado da Silva. Porto Alegre: Sulina/EDIPUCRS, 2000, 2 ed.

PITHAN, Flávia Ataíde. A Rede Orkut como Mecanismo de Vínculo Social e Produção de Conhecimentos. Reposcom, 2004. Disponível em: . Acessado em 21 de jun. de 2007.

NUSSBAUMER, Gisele Marchuori. Cultura e identidade gay: a diferença do múltiplo. Reposcom, 2001. Disponível em:

. Acessado em 21 de jun. de 2007.

NUSSBAUMER, Gisele Marchuori. E-jovens: potencialidades da escrita de si. Reposcom, 2004. Disponível em:

. Acessado em 21 de jun. de 2007.

GONÇALVES, Márcio Souza. Uma minoria virtual. Reposcom, 2001. Disponível em: . Acessado em 21 de jun. de 2007.

DELEUZE, G., GUATTARI, F. Mil Platôs - capitalismo e esquizofrenia. Editora 34, 1995.


[1] Graduando em Comunicação Social pela Universidade Federal do Espírito Santo

[2] Todas as informações utilizadas nesse trabalho para análise estavam disponíveis no site orkut (http://www.orkut.com) no dia 21 de junho de 2007.

[3] Localizada no fim da praia de coqueiral a referida feira é um popular ponto gay do Espírito Santo.

[4] Para os gays da Universidade Federal do Espírito Santo.

3 comentários:

Fabio Malini disse...

velho,

li, em versão impressa. Podemos conversar sobre ele quando eu chegar, depois do dia 27.

Conversar pela web mesmo.

À propósito sua nota foi 10.

O lance é que não tive acesso a pauta final ainda.

Abs, Malini

Anônimo disse...

David Cronenberg

Severo Sarduy

Anônimo disse...

necessario verificar:)