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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

"O PAPEL DE PAREDE AMARELO" - De Charlotte Perkins Gilman.

Tradução de Stelamaris Coser.



É muito raro que pessoas tão comuns como John e eu consigam um casarão antigo para passar o verão.

Uma mansão colonial, um imóvel de herança, eu diria até uma casa mal-assombrada, e atingir o auge da felicidade romântica - mas isso seria pedir demais ao destino!

Mesmo assim, posso afirmar solenemente que tem algo estranho com a casa.

Senão, por que seria alugada tão barato? E por que ficou sem inquilino por tanto tempo?

John ri de mim, é claro, mas isso já é esperado num casamento.
John é extremamente prático. Não tem paciência alguma com a fé, tem um horror enorme à superstição e debocha abertamente de qualquer conversa sobre coisas que não possam ser tocadas e vistas e registradas em números.

John é médico e talvez - (eu não diria isso a vivalma, claro, mas isso aqui é um papel morto e um grande alívio para minha cabeça) - talvez essa seja uma das razões para eu não melhorar mais rápido.

Sabe, ele não acredita que eu esteja doente!

E o que é que se pode fazer?

Se um médico altamente conceituado, o próprio marido da pessoa, garante a amigos e parentes que realmente não há nada demais  com ela, só uma depressão nervosa-temporária - uma ligeira tendência histérica -, o que se há de fazer?

Meu irmão também é médico, também altamente conceituado e diz a mesma coisa.

Assim, tomo fosfatos ou fósfitos - seja lá o que for, e tônicos e ar, e faço caminhadas e exercícios, e estou absolutamente proibida de “trabalhar" até estar bem de novo.

Pessoalmente, discordo das ideias deles.

Pessoalmente, acho que um trabalho agradável, com a empolgação e a novidade, me faria bem.

Mas o que se pode fazer?

Insisti em escrever por um tempo apesar deles; mas realmente me cansa muito - ter que fingir tanto sobre o assunto, ou então enfrentar oposição cerrada.

Às vezes tenho a fantasia de que, na minha condição, se tivesse menos oposição e mais companhia e estímulo - mas John diz que a pior coisa que posso fazer é pensar na minha condição, e confesso que isto sempre me deixa mal.

Então vou abandonar o assunto e falar da casa. Que lugar mais lindo! É bem isolada e fica bastante recuada da estrada, a umas três milhas da vila. Me faz lembrar lugares ingleses que a gente vê descritos em livros, pois tem cercas vivas, muros e portões com cadeados, e muitas casinhas separadas para os jardineiros e outras pessoas.

Tem um jardim delicioso. Nunca vi um jardim assim – grande e sombreado, cheio de caminhos entre os canteiros e caramanchões de parreiras de uvas com bancos embaixo para sentar.

Já teve estufas também mas agora estão todas quebradas. Houve algum problema legal ligado a herdeiros e co-herdeiros, eu acho, e o lugar ficou vazio durante anos.

Isso atrapalha a ideia que tive dos fantasmas, mas não importa - há algo estranho com a casa - posso sentir.

Até falei com John sobre isso numa noite enluarada, mas ele disse que o que senti foi uma corrente de ar, e fechou a janela.

Às vezes fico zangada com John sem razão. Tenho certeza que antes eu não era assim tão sensível. Deve ser por causa desse problema nervoso.

Mas John diz que se me sinto assim vou descuidar do meu autocontrole, então faço o maior esforço para me controlar - na frente dele, pelo menos, e isso me deixa muito cansada.

Não gosto nada do nosso quarto. Queria um no andar de baixo, que abria para a varanda e tinha rosas por toda a janela, e umas cortinas antigas de chintz tão lindas! Mas John não me deu ouvidos.

Disse que lá havia uma janela apenas e espaço insuficiente para duas camas, e nenhum quarto ao lado onde ele pudesse ficar.

Ele é muito cuidadoso e amoroso e quase não permite que eu me mexa sem me dar uma orientação especial.

Tenho uma receita que determina o que devo fazer a cada hora do dia; ele me tira qualquer preocupação, e me sinto uma ingrata por não dar mais valor a isso.

Disse que viemos pra cá só por minha causa, para eu descansar totalmente e respirar todo o ar puro possível. "Seu exercício depende de sua força, querida", falou, "e sua alimentação depende de seu apetite; mas ar puro você pode respirar o tempo todo". Então ficamos no berçário no andar de cima da casa.

É um quarto grande, arejado, quase todo o andar, com janelas para todos os lados, e ar e sol em abundância. Foi primeiro um berçário e depois sala de jogos e de esportes, eu imagino; pois as janelas têm grades para crianças pequenas, e há argolas e coisas nas paredes.

A pintura e o papel de parede dão a impressão de ali ter sido uma escola de meninos. Está arrancado - o papel - em pedaços grandes em torno da cabeceira da minha cama, até mais ou menos a altura onde consigo alcançar, e numa área bem grande, bem embaixo, do outro lado do quarto. Nunca vi papel pior em toda minha vida.

Um daqueles tipos de desenhos bem espraiados e espalhafatosos que pecam totalmente contra a arte.

É apagado o bastante para confundir quem busca segui-lo com o olhar, marcante o bastante para causar frequente irritação e provocar o estudo, e quando você tenta acompanhar as curvas tortas e incertas durante um pequeno trecho, de repente elas se suicidam - precipitam-se em ângulos ultrajantes, destroem-se em contradições impossíveis.

A cor é repelente, quase repulsiva; um amarelo sujo, apagado, estranhamente desbotado pela luz do sol que passa devagar sobre ele.

Em alguns lugares é de um laranja insípido, mas lúgubre, em outros, de um tom sulfúrico repugnante.

Não é de se espantar que as crianças o detestassem! Eu mesma o odiaria se tivesse que viver neste quarto muito tempo.

Lá vem John e tenho que guardar isto - ele odeia me ver escrevendo uma palavra que seja.

***

Já estamos aqui há duas semanas e não tive mais vontade de escrever, desde aquele primeiro dia.

Agora estou sentada à janela, neste berçário abominável, e nada pode impedir que eu escreva quanto eu quiser  a não ser a falta de forças.

John está fora o dia todo e até em algumas noites quando os casos são graves.

Fico contente que meu caso não seja grave!

Mas esses problemas nervosos são terrivelmente deprimentes.

John não sabe o quanto eu sofro de verdade. Ele sabe que não há razão para eu sofrer, e isso o satisfaz. 

Lógico que é apenas nervoso. Sinto-me tão culpada por não cumprir nenhum dos meus deveres! .

Meu desejo era dar tanta ajuda para John, tanto descanso e conforto, e aqui estou, igual a um fardo!

Ninguém acreditaria no enorme esforço que é fazer o pouco de que sou capaz - me vestir, conversar e pedir coisas.

Ainda bem que Mary é boa com o bebê. Um neném tão querido!

E, no entanto, não posso ficar com ele, me deixa tão nervosa!

Acho que John nunca ficou nervoso na vida. Ri tanto de mim por causa desse papel de parede!

No início ele tinha intenção de trocar o papel do quarto, mas depois disse que eu estava deixando que o papel me dominasse, e não havia nada pior para um doente dos nervos do que se deixar levar por tais fantasias.

Disse que depois que o papel fosse trocado seria a cabeceira pesada, e depois as janelas com grade, e aí aquele portão no alto da escada, e assim por diante.

"Você sabe que o lugar está lhe fazendo bem", falou, "e, na verdade, querida, não me interessa reformar a casa para um aluguel de apenas três meses".

"Então vamos ficar embaixo", eu disse. "Lá tem quartos tão lindos!".

Então ele me pegou nos braços e me chamou de santa bobinha, e disse que ficaria até no porão, se eu quisesse, e ainda mandaria pintar tudo de branco para completar.

Mas ele tem bastante razão sobre as camas e janelas e coisas.

É um quarto tão arejado e confortável que ninguém precisaria desejar mais nada, e claro que não sou tola a ponto de incomodá-lo por causa de um mero capricho.
Estou na verdade começando a gostar do quarto grande, de tudo, menos daquele papel horrível.

De uma das janelas posso ver o jardim, aquelas pérgulas misteriosas cheias de sombras, uma profusão de flores antigas, arbustos e árvores retorcidas.
De outra tenho uma vista linda da baía e de um pequeno cais particular que pertence à propriedade. Há uma bela alameda sombreada que vai do cais até a casa. Sempre imagino ver pessoas caminhando nesses muitos caminhos e passarelas, mas John  me alertou para não eu-não me entregar de jeito nenhum às fantasias. Ele diz que com o meu grau de imaginação e hábito de inventar histórias, uma debilidade nervosa como a que tenho pode levar a todo tipo de fantasias alucinadas, e que preciso usar minha vontade e bom senso para controlar a tendência. Por isso, eu tento.

Às vezes penso que se eu estivesse bem pelo menos para escrever um pouco, aliviaria a pressão das ideias e descansaria.

Mas vejo que fico bastante cansada quando tento.

É tão frustrante não ter quem me acompanhe e aconselhe no trabalho! John diz que quando eu estiver realmente bem vamos convidar os primos Henry e Julia para uma visita demorada; mas diz que seria melhor colocar fogos de artifício no meu travesseiro do que ter essas pessoas tão estimulantes por aqui, agora.

Gostaria de melhorar mais rápido.

Mas não devo pensar nisso. Esse papel olha para mim como se soubesse a má influência que tem!

Tem uma mancha recorrente onde o desenho se pendura como um pescoço quebrado e dos olhos esbugalhados encaram você, de cabeça para baixo.

Fico realmente aborrecida com a impertinência e a eterna repetição. Para cima e para baixo e de um lado para o outro eles rastejam, e aqueles olhos vidrados, absurdos, estão em toda parte.

Há um lugar onde duas tiras do desenho estão desencontradas, e os olhos vão de cima abaixo ao longo de toda a linha, um olho um pouco acima do outro.

Nunca tinha visto tamanha expressividade em algo inanimado, e todos sabemos quanta expressão as coisas costumam ter! Quando era criança, eu ficava acordada e achava mais diversão e terror nas paredes lisas e nos móveis simples do que a maioria das crianças encontra numa loja de brinquedos.

Lembro que os puxadores da nossa velha e grande escrivaninha piscavam de um jeito carinhoso, e tinha uma cadeira que era sempre como uma grande amiga.

Eu achava que se qualquer outra coisa ali parecesse ameaçadora demais era só me aconchegar naquela cadeira para me sentir segura.

Os móveis deste quarto, porém, não combinam nada, porque tivemos que trazer tudo do andar de baixo. Imagino que quando isso foi usado como sala de jogos tiveram que retirar as coisas do berçário, e com razão! Nunca vi tamanha destruição como a que as crianças fizeram aqui.

O papel de parede, como eu disse antes, foi arrancado em alguns lugares, e ele está mais coIado na parede do que um irmão a outro - elas devem ter tido muita perseverança e muito ódio.

E também o assoalho está arranhado e estragado e lascado, o gesso está cavado aqui e ali, e esta cama pesada e enorme, que é tudo o que encontramos no quarto, parece ter sobrevivido a várias
guerras.

Mas não me importo nem um pouco - só com o papel.

Lá vem a irmã de John. Uma moça tão querida e tão cuidadosa comigo! Não posso deixar que me veja escrevendo.

Ela é uma perfeita e entusiasmada dona de casa, e não deseja profissão melhor que essa. Acredito realmente que ela pense que escrever foi o que me deixou doente!

Mas posso escrever quando ela está fora, e consigo enxergá-la ao longe através destas janelas.

Tem uma janela que dá vista para a estrada, uma estrada linda e sombreada, cheia de curvas, e uma outra que se abre para o campo. É também um campo lindo, cheio de grandes olmos e prados que parecem veludo.

Esse papel de parede tem uma espécie de desenho por baixo num tom diferente, e é particularmente irritante, porque só dá para ver sob uma luz específica, e mesmo assim sem clareza.

Mas, nos lugares onde não está desbotado e o sol bate do jeito certo - posso ver um tipo de figura estranha, provocante, disforme, que parece esconder-se, amedrontada, por trás daquele desenho principal tolo e óbvio.

Lá vem a irmã subindo a escada!

* * *

Bem, o feriado de Quatro de Julho terminou! As pessoas foram todas embora e eu estou esgotada. John achou que me faria bem ter um pouco de companhia, então só vieram para cá minha mãe e Nellie e as crianças durante uma semana.

Claro que não fiz nada. Jennie cuida de tudo agora.

Mas me cansou assim mesmo.

John diz que se eu não me recuperar mais rápido vai me mandar para Weir Mitchell no outono.

Mas não quero ir para lá de jeito nenhum. Tenho uma amiga que esteve uma vez nas mãos dele e disse que ele é igual a John e meu irmão, só que pior ainda!

Além disso, é um trabalho enorme ir para tão longe.

Sinto que não vale a pena mexer minha mão para nada, e estou ficando tremendamente irritadiça e mal-humorada.

Choro à toa, e choro a maior parte do tempo.

Claro que não choro quando John está aqui, ou outra pessoa, mas quando estou sozinha.

E agora fico bastante só. Frequentemente John precisa ficar na cidade por causa de pacientes graves, e Jennie é boa e me deixa sozinha quando quero.

Aí ando um pouco pelo jardim ou por aquela linda alameda, sento na varanda perto das rosas, e fico bastante tempo deitada aqui em cima.

Estou gostando mesmo do quarto apesar do papel de parede. Talvez por causa do papel de parede.

Ele não me sai da cabeça!

Deito aqui nesta grande cama imóvel- acho que está pregada no chão - e sigo aquele desenho durante horas. É tão bom quanto fazer ginástica, posso lhe afirmar. Começo, digamos, na parte de baixo, lá no canto onde o papel não foi afetado, e decido pela milésima vez que vou sim acompanhar o traçado deste desenho sem sentido até chegar a algum tipo de conclusão.

Tenho algumas noções básicas de desenho, e sei que essa coisa não foi planejada segundo qualquer regra de irradiação, ou alternância, ou repetição, ou simetria, ou outra coisa de que eu já tenha ouvido falar.

Ele se repete, é claro, nas tiras do papel, mas não de outra maneira.

Olhada de certo modo, cada faixa fica sozinha, com curvas inchadas e floreios - uma espécie de imitação barata do estilo românico com delirium tremens - contorcendo-se para cima e para baixo em colunas isoladas cheias de futilidade.
Mas, por outro lado, elas se ligam diagonalmente, e os traços espalhados fogem em grandes ondas diagonais de horror visual, como uma porção de algas marinhas nadando em ritmo de total perseguição.

A coisa toda segue horizontalmente, também, pelo menos assim me parece, e fico exausta tentando decifrar qual é a ordem que leva o desenho nessa direção.

Usaram uma faixa horizontal como frisa na parede, e isso contribui maravilhosamente com a confusão.
Há um canto do quarto onde o papel está quase intacto e lá, quando a iluminação lateral é pouca e o sol já baixo brilha diretamente sobre ele, quase consigo imaginar um ponto de irradiação, afinal, - as intermináveis figuras grotescas parecem formar-se ao redor de um centro comum e precipitar-se em queda vertiginosa, com a mesma loucura.

Me cansa acompanhar o desenho. Acho que vou dormir um pouco.

***

Não sei por que escrevo isto.

Eu não quero.

Não me sinto capaz.

E John acharia um absurdo. Mas eu tenho que dizer o que  sinto e penso de algum modo - é um alívio enorme!

Mas o esforço está se tornando maior que o alívio.

A metade do tempo agora fico extremamente ociosa e deitada demais.

John diz que não posso perder minhas forças, e me faz tomar óleo de fígado de bacalhau, e muitos tônicos e coisas assim, para não falar da cerveja preta e do vinho e da carne malpassada.

Querido John! Ele me ama muito, e detesta me ver doente.

Tentei ter uma conversa séria com ele outro dia e dizer que eu gostaria muito que me deixasse ir visitar o primo Henry e Julia.

Mas ele falou que eu não seria capaz de ir, nem de aguentar quando chegasse lá; e não consegui defender bem minha causa porque comecei a chorar antes de chegar ao final.

Para mim está se tornando um grande esforço pensar com clareza. É só essa fraqueza nervosa, suponho.

E meu caro John me pegou em seus braços e simplesmente me carregou para cima e me colocou na cama, sentou ao meu lado e leu para mim até que  isso cansou minha cabeça.

Disse que eu era sua querida, seu conforto e tudo que ele tinha, e que devo cuidar de mim por causa dele, e ficar bem.

Diz que ninguém, fora eu mesma, pode me tirar disso, que devo usar minha força de vontade e autocontrole e não permitir que fantasias tolas me descontrolem.

Há um conforto pelo menos, o bebê está bem e feliz, e não precisa ficar neste berçário com o papel de parede horrível.

Se não o tivéssemos ocupado, a querida criança teria! Que felicidade ter escapado! Ora, eu não gostaria, por nada no mundo, que um filho meu, uma coisinha pequena e impressionável, vivesse num quarto assim.

Nunca pensei nisso antes, mas foi sorte John ter-me mantido aqui, afinal, posso aguentar muito melhor que um bebê, entende?

Claro que não toco mais nisso com eles - sou inteligente o bastante -, mas continuo vigiando o papel do mesmo jeito.

Há coisas nesse papel de parede que ninguém conhece ou conhecerá, exceto eu.

Por detrás desse desenho externo principal, as formas confusas se tornam cada dia mais nítidas.
É sempre a mesma forma, só que em grande número.

E parece uma mulher se abaixando e se arrastando por trás do desenho. Não gosto nada disso. Fico imaginando - começo a pensar - gostaria que John me levasse para longe daqui!


***

É tão difícil conversar com John sobre meu caso, porque ele é tão sábio e porque me ama tanto.

Mas tentei, ontem à noite.

Era noite de lua. A lua entra aqui com seu brilho por todos os lados, assim como o sol.

Às vezes detesto vê-la, ela se esgueira tão lentamente, e sempre entra por uma janela ou por outra.

John estava dormindo e eu detestaria acordá-lo, então fiquei quieta e observei a luz da lua sobre as ondulações daquele papel de parede, até ficar com arrepios.

A figura esmaecida de trás parecia sacudir o desenho da frente como se quisesse escapar.

Levantei suavemente e fui lá sentir se o papel realmente se movia, e quando voltei John tinha acordado.

"O que é, menina?", ele disse. "Não saia por aí andando assim  - você vai sentir frio".

Achei que era um bom momento para conversarmos, então falei que realmente eu não estava melhorando aqui e gostaria que me levasse embora.

"Mas como, querida!", disse ele, "nosso contrato vence em três semanas e não vejo como partir antes".

"Os consertos não estão prontos lá em casa, e não posso de forma alguma sair da cidade agora. Claro que se você estivesse em perigo eu poderia e iria embora, mas na verdade você está melhor, querida, mesmo que não perceba. Sou médico, querida, e sei. Você está ganhando peso e cor, seu apetite está melhor, e estou me sentindo bem mais tranquilo em relação a você.

"Não estou pesando nada mais do que antes, nem o mesmo", falei; e meu apetite pode ser melhor à noite, quando você está aqui, mas é pior de manhã, quando você está fora".

"Deus abençoe este coraçãozinho!", ele disse, com um grande abraço, "pode ficar doente o quanto quiser! Mas agora vamos melhorar as horas de sono indo dormir, e conversamos sobre isso amanhã de manhã!".

"E você não vai embora?", perguntei com tristeza.

"Mas, querida, como posso? São só três semanas mais e então faremos uma viagem agradável por alguns dias, enquanto Jennie apronta a casa. Querida, você está realmente melhor!".

"Melhor no corpo, talvez -" comecei e parei imediatamente, porque ele se sentou bem reto e me fitou com um olhar tão duro e reprovador que não pude dizer mais nem uma palavra.

"Minha querida", disse ele, "suplico a você, pelo meu bem e pelo bem de nosso bebê, assim como por seu próprio bem, que nunca deixe aquela idéia entrar na sua cabeça nem por um instante!”.

Não existe nada tão perigoso, tão fascinante, para um temperamento como o seu. É uma fantasia boba e falsa. Você não confia em mim como médico quando lhe afirmo isto?".

Então, por essa razão, é claro que não falei mais nada, e daí a pouco dormimos. Ele pensou que eu tinha dormido primeiro, mas não dormi, e fiquei lá deitada durante horas, tentando decidir se aquele desenho da frente e o desenho de trás realmente se moviam juntos ou separadamente.

***

Num tipo de desenho como esse, na luz do dia, há uma falta de sequência, um desprezo pela lei, que não para de irritar qualquer mente normal.

A cor em si já é horrorosa, incerta e enfurecedora, mas além disso o desenho é torturante.
Você pensa que o compreendeu e dominou, mas quando já está acompanhando bem o padrão, ele dá uma cambalhota, e pronto!

Bate na sua cara, derruba, pisa em você. É como um pesadelo.

O padrão de desenho externo é um arabesco florido que me lembra um fungo. Se você conseguir imaginar fungos articulados, uma interminável fileira de fungos brotando e crescendo em complexidades sem fim - isso mesmo, é algo assim.

Quer dizer, às vezes!

Há uma peculiaridade marcante nesse papel, algo que ninguém parece notar exceto eu, o fato de mudar quando a iluminação muda.

Quando o sol bate forte pela janela leste - sempre fico esperando por aquele primeiro raio, longo, direto - ele muda tão rapidamente que quase não consigo acreditar.

Por isso é que o vigio sempre.

À luz do luar - a lua brilha no quarto a noite toda quando tem lua - eu não poderia afirmar que ele era o mesmo papel.

À noite, em qualquer tipo de luz, ao entardecer, à luz da lâmpada e, o pior de tudo, à luz da lua, ele se transforma em barras!

Quer dizer, o padrão externo, e a mulher atrás dele fica absolutamente nítida.

Não percebi por um bom tempo qual era a coisa que aparecia atrás, naquele desenho obscuro embaixo, mas agora tenho bastante certeza de que é uma mulher.

Na luz do dia ela fica quieta, contida. Fico imaginando que é o padrão de desenho do papel que a-mantém tão parada. É algo tão intrigante! Isso me deixa quieta por horas a fio.

Fico tanto tempo deitada, agora. John diz que é bom para mim - e dormir o mais que puder.

De fato, ele começou com o hábito de me mandar deitar por uma hora após cada refeição.

É um péssimo hábito, estou convencida disso, porque, você sabe, eu não durmo.

E isso estimula a falsidade, porque não digo a eles que estou acordada - oh, não!

O fato é que estou ficando com um pouco de medo do John.

Ele, às vezes, parece muito estranho, e até Jennie está com uma cara inexplicável.

Me ocorre de vez em quando, só como hipótese, que talvez seja o papel!

Fiquei observando John quando ele não sabia que eu estava olhando, vindo de repente ao quarto com as desculpas mais inocentes, e peguei-o várias vezes olhando para o papel! E Jennie também.

Peguei Jennie uma vez com a mão no papel.

Ela não sabia que eu estava no quarto, e lhe perguntei, com a voz baixa, uma voz bem baixa, da maneira mais controlada possível, o que ela estava fazendo com o papel - ela se virou rápido, como se tivesse sido pega roubando, e me pareceu muito zangada - e perguntou porque eu a amedrontava assim!

Então ela disse que o papel manchava tudo que encostava nele, que tinha achado manchas amarelas em todas as minhas roupas e nas de John, e gostaria que fôssemos mais cuidadosos!

Isso parecia uma razão inocente, não é? Mas sei que ela estava estudando aquele desenho, e estou decidida que ninguém vai decifrá-lo a não ser eu!

***

A vida agora está muito mais animada do que antes. Sabe, tenho algo mais a esperar, a prever, a observar. Realmente me alimento melhor, e estou mais quieta do que era.

John está tão contente em me ver melhorando! Riu um pouco outro dia, e disse que eu parecia estar florescendo apesar do meu papel de parede.

Cortei o assunto com uma risada. Não tinha intenção alguma de lhe dizer que era por causa do papel de parede - ia debochar de mim. Podia até querer me levar embora.

Não quero partir agora antes que o descubra. Tem mais uma semana, e acho que vai ser suficiente.

***

Estou me sentindo tão melhor!

Não durmo muito à noite porque é tão interessante observar as evoluções; mas durmo muito durante o dia.

O dia me deixa cansada e perplexa.

Há sempre brotos novos nos fungos e novos tons de amarelo por toda parte. Não consigo saber direito quantos são, apesar de haver tentado contar com muito cuidado.

É o amarelo mais estranho que existe, esse papel de parede! Faz-me pensar em todos  os amarelos que já vi - não os tons bonitos dos botões-de-ouro, mas as coisas velhas, ruins e podres.

Mas tem algo mais com esse papel – o cheiro! Notei no instante em que entramos no quarto, mas com tanto ar e sol não era tão ruim. Agora tivemos uma semana de chuva e nevoeiro, e com as janelas abertas ou não, o cheiro está aí.

Arrasta-se pela casa toda.

Encontro-o pairando sobre a sala de jantar, passando esquivo para a sala de estar, escondendo-se no corredor, à minha espreita na escada.

Penetra em meus cabelos.

Até quando vou andar de bicicleta, se viro minha cabeça de repente para surpreendê-la - lá está o cheiro!

Um odor tão peculiar, também! Tenho passado horas tentando analisá-lo, descobrir que cheiro é esse.

Não é ruim - no começo -, e é bem leve, mas é o odor mais sutil, mais duradouro que já encontrei.

Neste tempo úmido é terrível, acordo de noite e o vejo pendurado acima de mim.

Isso a principio me perturbava. Pensei seriamente em colocar fogo na casa - para atingir o cheiro.

Mas agora me acostumei a ele. A única coisa que posso pensar é que ele é igual à cor do papel! Um cheiro amarelo!

Há uma marca muito engraçada nesta parede, bem próxima do rodapé. Uma listra que percorre todo o quarto. Passa atrás de cada móvel, exceto a cama, uma faixa longa, reta, até pegajosa, como se tivesse sido esfregada muitas vezes.

Queria saber como foi feita e quem a fez, e para que a fizeram.

Roda e roda e roda - roda e roda e roda - me deixa tonta!

***
Descobri mesmo uma coisa, finalmente.

Depois de tanta observação durante a noite, quando ele muda tanto, afinal descobri.
O desenho da frente se mexe mesmo - é lógico! A mulher por trás dele o sacode!
Às vezes penso que há muitas mulheres atrás, e às vezes apenas uma, e ela rasteja em volta bem depressa, e o movimento que faz rastejando sacode tudo.

Então, nos locais bem claros ela fica parada, e nos pontos mais escuros ela se agarra nas barras e as sacode com força.

E o tempo todo ela está tentando saltar para fora das grades.

Mas ninguém conseguiria escapar daquele padrão de desenho – ele estrangula tanto; acho que é por isso que tem tantas cabeças.

Elas passam para o outro lado, e aí o desenho as estrangula e as coloca de cabeça para baixo, e faz seus olhos ficarem brancos!

Se essas cabeças fossem cobertas ou retiradas não seria tão mau.

***

Acho que essa mulher sai durante o dia!

E posso lhe dizer - em particular - porque eu a vi!


Posso vê-la de cada uma das minhas janelas!

É a mesma mulher, eu sei, porque está sempre se arrastando, e a maioria das mulheres não rasteja à luz do dia.
v
Eu a vejo naquela alameda longa e sombreada, rastejando para cima e para baixo. Vejo-a naquelas parreiras, rastejando por todo o jardim.

Vejo-a naquela longa estrada sob as árvores, arrastando-se, e quando vem uma carruagem ela se esconde debaixo dos pés de amora preta.

Não a culpo nem um pouco. Deve ser muito humilhante ser apanhada rastejando a luz do dia.

Sempre tranco a porta quando me arrasto durante o dia. Não posso fazer isso à noite, porque sei que John desconfiaria de algo imediatamente.

E John agora anda tão estranho que não quero irritá-lo.

Gostaria que fosse dormir em outro quarto! Além disso, não quero que ninguém deixe aquela mulher sair à noite a não ser eu.

Fico sempre pensando se seria possível vê-la por todas as janelas de uma vez só.

Mas, por mais rápido que eu me vire, só consigo avistá-la de uma janela de cada vez.

E embora sempre a veja, ela é capaz de rastejar mais rápido do que eu consigo virar-me!

Algumas vezes a enxerguei lá longe no campo aberto, rastejando rápido como uma sombra de nuvem ao vento.

***

Se pelo menos o padrão do desenho de cima pudesse ser separado do de baixo! Quero tentar fazer isso, aos poucos.

Descobri outra coisa engraçada, mas não vou contar desta vez. Não dá certo confiar demais nas pessoas.

Tenho só mais dois dias para arrancar esse papel, e acho que John está começando a reparar. Não gosto da expressão dos olhos dele!


E ouvi que ele fez a Jennie várias perguntas profissionais sobre mim. Ela fez um relatório muito bom.

Disse que eu dormia muito de dia John sabe que não durmo bem à noite, pois estou sempre tão quieta!

Ele me fez todo tipo de pergunta, também, e fingiu ser amoroso e gentil.

Como se eu não pudesse ver através dele!

Mesmo assim, não me admira que ele aja assim, dormindo debaixo desse papel há três meses.

Ele só interessa a mim, mas tenho certeza de que John e Jennie foram secretamente afetados por ele.


***


Viva! Este é o último dia, mas é o bastante. John está pernoitando na cidade, e só vem hoje ao anoitecer.

Jennie queria dormir comigo - a falsa! Mas eu disse a ela que sem dúvida eu descansaria mais passando uma noite sozinha.

Foi uma ideia inteligente porque, na verdade, eu não estava nada sozinha! Logo que a lua nasceu e aquela pobrezinha começou a rastejar e sacudir o padrão do desenho, levantei-me e corri para ajuda-la.

Eu puxava e ela sacudia, puxava e ela sacudia, e antes da manhã chegar tínhamos descascado muitos metros do papel.

Uma faixa da altura de minha cabeça, em volta da metade do quarto.

E então quando o sol chegou e aquele padrão terrível começou a rir de mim, decidi que terminaria isso hoje de qualquer maneira!

Vamos embora amanhã, e estão levando meus móveis para baixo de novo para deixar as coisas como eram antes.

Jennie olhou para a parede assustada, mas eu disse a ela bem alegremente que tinha feito aquilo de pura raiva daquela coisa horrorosa.

Ela riu e disse que até faria a mesma coisa, mas que eu não devia me cansar.

Como ela se traiu dessa vez!

Mas estou aqui, e ninguém vai tocar nesse papel a não ser eu - ninguém com vida!

Ela tentou me tirar do quarto - isso ficou bem patente! Mas eu disse que ele estava tão quieto, vazio e limpo agora que eu achava que ia me deitar e dormir o quanto pudesse, e que não me acordassem
nem para o jantar - eu chamaria quando acordasse.

Então ela saiu, e os empregados se foram, e as coisas se foram, e nada ficou a não ser essa grande cama pregada no chão, com o colchão de lona que encontramos nela.

Dormiremos lá embaixo esta noite, e iremos para casa de barco amanhã.

Gosto bastante do quarto, agora que está vazio de novo. Como aquelas crianças rasgaram tudo aqui!

Esta cabeceira está cheia de de dentes!

Mas tenho que ir trabalhar.

Tranquei o quarto e joguei a chave lá embaixo no caminho da frente.

Não quero sair, e não quero que ninguém entre até John chegar.

Quero impressioná-lo.

Tenho uma corda escondida que nem Jennie conseguiu achar. Se aquela mulher escapar e tentar fugir, eu posso amarrá-la!
Mas esqueci que não consigo alcançar no alto se não tiver algo em que subir!

Esta cama não se mexe!

Tentei levantá-la e empurrá-la até eu ficar torta, e então fiquei com tanta raiva que dei uma mordida nela em um canto - mas machucou meus dentes.

Aí descasquei todo o papel que consegui alcançar estando em pé no chão. É terrivelmente grudado e o padrão deve adorar isso!

Todas aquelas cabeças degoladas e olhos esbugalhados e fungos tremulantes dão guinchos de deboche!

Estou ficando com tanta raiva que posso fazer algo desesperado.

Pular pela janela seria um exercício excelente, mas as grades são fortes demais até para tentar.

Além do mais, eu não faria isso. Claro que não. Sei bem que um passo desses é inapropriado e pode ser mal interpretado.

Não gosto nem de olhar para fora das janelas - tem tantas dlquelas mulheres rastejando, e elas se arrastam tão rápido.

Será que toda elas saíram desse papel como eu saí?

.Mas-agora estou bem amarrada pela corda que escondi taõ bem – você não vai conseguir me colocar naquela estrada lá fora.

Suponho que vou ter que voltar para dentro do padrão do desenho quando chegar a noite, e isso é difícil!

É tão agradável ficar solta neste quarto enorme e rastejar em volta do quarto do jeito que eu quiser!

Não quero sair daqui. Não vou, mesmo que Jennie me peça.

Porque lá fora você tem que rastejar no chão, e é tudo verde em vez de amarelo.

Mas aqui posso me arrastar no assoalho, e meu ombro se encaixa bem naquela mancha comprida em volta da parede, e assim não perco o rumo.

Ih, John está na porta!

Não adianta, jovem senhor, não conseguirá abri-la!

Como ele chama e bate!

Agora está gritando e pedindo um machado.

Seria uma pena quebrar essa porta tão linda!

"John, querido!", disse eu na voz mais suave, "a chave está lá fora, perto dos degraus da entrada, debaixo de uma folha de bananeira!”.--o>

Isso o deixou calado por uns minutos.

Depois ele falou - de um jeito bem suave, "Abra a porta, minha querida!".

"Não posso", disse eu. "A chave está perto da porta da frente, debaixo de uma folha de bananeira!".

E então repeti isso várias vezes, bem gentilmente e devagar, e disse tantas vezes que ele teve que ir ver, e a encontrou, claro, e entrou. Parou bruscamente na porta.

"Que aconteceu?", gritou. "Pelo amor de Deus, o que está fazendo?".
Continuei rastejando do mesmo jeito, mas olhei para ele por cima do ombro.

"Consegui sair, até que enfim", eu disse, "apesar de você e de Jane, arranquei quase todo o papel, assim não podem me prender lá de novo!".

Ora, por que será que o homem desmaiou? Mas caiu desmaiado, sim, e atravessado justamente no meu caminho perto da parede, de modo que tive que rastejar por cima dele a cada volta!